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  • Quinta-feira, 10 de março de 2005

    Tubarões voadores

    Não recordo bem quando passei a morar na casa, nem como a descobri, nem porque. Talvez sempre tenha morado nela...

    Era Sábado de manhã, e como de costume, todos os moradores da casa faziam buracos no chão. Toda sala estava cheia de buracos, cozinha, banheiro, a casa inteira, e a cada manhã os buracos eram fechados e novos buracos seriam abertos, maçantes e monótonos previsíveis buracos cúbicos.

    Nunca tinha participado do ritual de cavar, mas também não me incomodava, por assim dizer. Na verdade o que realmente perturbava-me eram os tubarões voadores, Orcas e focas. Mas os tubarões eram de causar suicídio em qualquer um, em longo prazo. Voavam em círculos perto do teto, da casa, e vez em quando se aproximavam de nós, pois as focas, quase sempre se afundavam nos puffs de hélio, que voavam pela casa.

    Às vezes, ao puxarmos alguma cordinha, de algum Hélio-Puff, para trazê-lo ao chão, encontrávamos alguma foca escondida nas dobrinhas do assento voador, como de um grande cachorro japonês.

    Depois de encontrar focas nos 9 Puffs da casa, deixei-os subir novamente ao teto, e saí de carro, aleatoriamente, pois não agüentava mais focas, e os buracos estavam realmente tirando-me do sério.

    Dei a ignição e saí. Era uma bela manhã de Sábado e o sol estava belo e azul, e o céu lindo, de um vermelho maravilhoso, como não via desde a tenra infância. Era um vermelho sangue, lindo, com traços de um rosa delicado. O céu estava limpo, sem nuvens. O único azul que se via era do sol mesmo. O céu mais vermelho do ano, simplesmente belo.

    Estava subindo rápido a avenida Rebouças, e ao chegar ao último farol antes da avenida Paulista um moleque veio de encontro a mim, aproximando-se da janela do meu carro.

    Fiquei a olhá-lo e a ser observado talvez por um minuto inteiro, e não sei porque não furei o farol vermelho e deixei o tal moleque para trás. Fiquei fitando-o até que veio o movimento esperado por meu subconsciente. Mãos de moleque por dentro da jaqueta a mostrar o volume de algo, que seria uma arma de corte – uma faca, ou canivete, talvez.

    De repente começou a gritaria : - Passa a grana tio, passa grana, senão eu te furo, eu te furo !

    Disse calma ao moleque, e abri lentamente a minha carteira. Mostrei o interior ao moleque e disse : Olha só, está vendo ? Tenho Cem reais aqui, neste bolo de notas de Dez Reais, ta vendo moleque, o bolo ? Mas só vou lhe dar Dez Reais.

    O moleque não entendendo nada, achando inexplicável a minha atitude, primeiro atônico, depois bravejando, dizia : Dá tudo, tio, senão eu te furo mesmo !

    Novamente eu disse : Só dez reais, ou não dou nada.

    Não sei porque fiquei com dó do moleque, e resolvi dar um pouquinho a mais.

    - Dou Oitenta reais, ta bom pra você ?

    O moleque ficando todo radiante de felicidade, logo falou : Ta bom, tio, firmeza, valeu.

    Abri a carteira e dei os oitenta reais, mas olhando bem os vinte reais restantes, e os oitenta na mão do moleque, mudei de idéia. Cacete, pensei ! Ele ta oitenta mangos...

    Rapidamente agarrei o braço ainda distraído do moleque, próximo a mim, e acelerei o carro, descendo a Consolação, e arrastando o moleque pelo braço, por fora do carro, correndo, caindo, se arrastando enquanto eu mantinha o carro a uns quinze quilômetros por hora.

    Enquanto ele berrava, solta, solta, solta, eu disse : Quanto você me dá para eu soltar o seu braço ? Quanto ?

    -Oitenta, oitenta dizia o moleque, devolvo os oitenta paus.

    Reduzi a velocidade para uns dez quilômetros por hora, e retruquei rapidamente, me dá os oitenta e tudo que você ganhou neste farol hoje, que eu lhe solto.

    Recebi um bolo de notas de cinqüenta reais, e dez, e saí, deixando o moleque sentado na calçada a chorar, no meio da consolação.

    Olhando o bolo de dinheiro logo percebi que havia algo em torno de trezentos reais.Legal, daria para a recarga de Hélio dos Puffs !

    Sonho ocorrido na obscura mente do amigo Mauro Pontes.