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  • Quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005


    O que é perceber uma música?


    O que é perceber uma música ? Não sei. Mas estou tentando saber.

    Ontem ao sair de um concurso de música, encontrei-me com minha namorada e fomos até a USP rever uns amigos e relaxar um pouco. Deparei-me com um amigo que não via talvez há 2 dois anos, que estudava no instituto de física comigo, e na mesma época que saí para estudar música ele foi estudar filosofia.

    Sentamos nas grandes pedras da praça do relógio e uma conversa interessante surgiu.

    Disse a ele que há tempos uma inquietação mental não me deixa em paz. Contei-lhe que ao meu ver um ocidental ouve a música com o ouvido, que aparentemente não tem nada de anormal, mas na verdade é um fato absurdo.

    Todos já devem ter notado que ao se submeter o corpo às proximidades de uma grande caixa de som, as freqüências graves são sentidas em ondas pelo nosso corpo. Você ouve também com o corpo as batidas do drum ‘n bass por exemplo. Para um ocidental, como eu, só nos extremos percebemos isso, geralmente nos graves, ou nos limites agudos, quando sentimos dor ou incômodo dentro do ouvido.

    Para um oriental, devido às suas postura “yogue” de ser, o perceber a música passa por todas as moléculas do corpo, porque o a música realmente gera vibração em nossos corpos, apenas não estamos treinados para detectá-la, não crescemos adestrando esse sentido, além dos cinco, SENTIR AS VIBRAÇÕES, com o corpo.

    Isto estava muito claro para mim, em termos físicos e musicais, que somos pequenos, nossa percepção infantil limitada nos engana dizendo-nos que ouvimos alguma coisa, mas não sabia até que ponto era viagem minha ou não. Poderia ser alguma alucinação interna de algum eu meu querendo provar alguma teoria minha.

    Este meu amigo falou que ao estudar filosofia oriental deparou-se com algo parecido com o assunto das minhas inquietações.

    Disse que para um ocidental a análise de qualquer amostra, fator, ou valor (em questão básica e diretamente ligada à percepção) é a análise do corpo denso, e para o oriental é o estado. Isso seria o suficiente para embasar a minha teoria. Que provavelmente nem é minha, talvez já tenham pensado nisso, mas naquele momento era minha e dele (já que ele abraçou a conversa com afinco).

    Mas o fato de um oriental ouvir a música desse jeito, organicamente, cada nota percebida por cada molécula do corpo, é maravilhoso, gostaria muito de chegar a esse nível de consciência, mas ainda não é tudo. É claro que é mais abrangente, mas não completo, porque a música cíclica é muito diferente da música linear, e depois de milênios pensando no universo cíclico a música passou a ser assim também, e este estado de perceber as coisas por estados é mais fácil de se chegar quando se pensa naturalmente ciclicamente, não linearmente como nós. Mas a música linear existe também, e não deve ser desprezada, pois é muito poderosa.

    Provavelmente até depois de milênios da civilização oriental, como no caso da Índia, até o os corpos físicos sejam mais sensíveis, mais evoluídos nesse sentido... sei lá !

    Houve certa vez um maestro da Índia que estando assistindo uma apresentação sinfônica ocidental, após os músicos afinarem os seus instrumentos antes ainda da execução da obra musical em si, pôs-se ereto e aplaudiu afinação. Para ele, aquele puxar e soltar de cordas, de palhetas, de bocais já era música. Que lição de humildade para nós, não ?

    E fico eu a pensar. O que é perceber uma música ?