Quinta-feira, 20 de janeiro de 2005
A loucura controlada
Há sabedoria na loucura controlada, sussurrava Mi-Tshe-Ring.
Era um daqueles dias de lascar. O sol fervia as nuvens e o céu chorava pelo intenso calor que o feria. Os últimos meses foram terríveis para o mundo. Calor, muito calor, sussurrava Mi-Tshe-Ring. Calor, muito calor...
Meses a fio sem chuva, a temperatura beirava os quarenta e oito graus Celsius em Barcelona. Uma epidemia misteriosa havia se alastrado. Ainda não havia mortos, ou melhor, ainda não havia corpos espalhados pela Europa. Os corpos estavam andando por aí, pelas sombras, escondendo-se do Sol, mas não agiam mais como dantes.
Via-se de tudo nas ruas. Bufões andavam e corriam tropeçando em seus próprios pés, ou em algum outro par desavisado que passassem próximos aos deles. Derrubavam toalhas úmidas dos varais (as pessoas agora tinham este hábito. Em todo lugar encontravam-se panos úmidos pendurados), e as colocavam em suas cinturas de bufões. Tiravam suas calças e roupas íntimas, por sob a toalha, e mostravam seus órgãos sexuais em meio a gargalhadas grotescas. Às vezes apenas sentavam-se em algum banco de praça e falavam e riam com algum amigo imaginário.
Via-se também seres andróginos aos montes. Mi-Tshe-Ring observava e queixava-se do calor, da sacada de seu apartamento, em meio a toalhas úmidas e muito calor.
Outro dia de lá viu pessoas aglomeradas para assistir um vizinho ser serrado ao meio. Tinham cometido um erro durante o processo e agora tinham dois jornaleiros de noventa centímetros cada. Na verdade perderam um pedacinho dele. Mi-Tshe-Ring achava que do jornaleiro original de um metro e oitenta e dois centímetros, tinha sobrado talvez um metro e setenta e cinco.
Varreram as rebarbas do corpo bi-partido em meio ao sangue que vazava da caixa recém aberta. Mas lá iam eles, em meio a gritos histéricos, serrar outro vizinho, para tentar reproduzir o espetáculo de gerações passadas, realizado sob tendas de lona. Imaginava Mi-Tshe-Ring, hoje, sob uma lona, em meio a tal calor, qualquer criança ferveria...
Quantas máscaras pela rua. Todos usavam alguma. Mi-Tshe-Ring não entendia o planeta. Sua namorada dizia que dos quarenta e poucos músculos acionados no ato de sorrir, na face, (quando se mostra os dentes), não tinha visto nem seis. Mi-Tshe-Ring era louco. Era completamente fora dos padrões do mundo atual, por isso mantinha-se só a completar os trabalhos finais dos I.As. que estavam aprendendo a tocar trompa. Eram um quarteto de trompas. Tocavam razoavelmente bem escalas melódicas e harmonias complexas, mas a paixão dos antigos homens não se encontrava neles. Mi-Tshe-Ring depois de sete anos de pesquisa não entendia porque não conseguiam tocar como ouvia em gravações passadas. A essa altura já deveriam estar interpretando fragmentos de Stravinsky, mas soava apenas um dó ré dó ré interminável, com harmônicos que lembravam o som de um videogame do século XX, algo como o som do acelerar dos carros do Enduro-Atari.
Sua namorada ainda pretendia um dia ver os tais músculos da face a contrair e relaxar durante o tão aguardado riso de Mi-Tshe-Ring, que nunca vinha.
Como Violeta fora feita à imagem e semelhança do seu criador, não conseguia sorrir também. Era tal qual Mi-Tshe-Ring. Não entendia piadas, não assoviava, não cantarolava no chuveiro holográfico, nem enquanto comia. (tanto o chuveiro, quanto às refeições eram holográficas, Foram aclopadas ao programa inicial dos I.As. com intuito de reproduzir as funções básicas do prazer. Comer e banhar-se).
O mundo parecia um grande circo. As Sete Faces do Doutor Lao não descreveria tal espetáculo tão bem quanto o que se via em qualquer banco das muitas praças de Barcelona.
Ao olhar de sua sacada para a Sagrada Família, ainda inacabada depois de quase um século, pensou : talvez hoje Gaudi seria um ser normal, tal como eu, perante tal desvairada manada de seres humano-oníricos. Se houvesse mais homens como ele, ou como eu, em suma normais, resolver-se-ia o problema da construção. Talvez até Gáudio não tivesse morrido atropelado, pois para que olhar para a loucura arquitetônica acima de sua cabeça, se havia tanta no solo entre as pessoas...teria visto o carro a se aproximar dele...não teria sido atropelado.
Ao acessar o banco de dados dos costumes culturais do Século XX, se deparou com dados de religiões ocidentais diversas. Via que as religiões eram como um grande circo. Digo, o Rito, não o Mito, que fique claro, pensava ele. Pastores, padres, cléricos aglomeravam pessoas perante seus púlpitos e as instigavam a acreditar no impossível, no improvável. Em vez de serrar pessoas ao meio, juravam poder concertá-las, em nome de algum nome mitológico (cada uma tinha um a que recorrer). Todas aquelas pessoas com máscaras o incomodavam. Não entendia o porque deste costume atual de andar por aí com outro rosto, colocado sobre o original orgânico.
Mas se ninguém mais agia como ser individual, para que a individualidade genética? Para que tamanha singularidade em rostos diferentes, etnias, culturas. Havia apenas os grupos. Os grandes grupos.
Clãs de Bufões, clãs dos oníricos-homens, dos palhaços, dos andróginos. (As mulheres não se depilavam mais, e as que possuíam pelos faciais devido a alguma disfunção genética, tinham agora o péssimo hábito de cultivá-los, e até realçá-los com lápis e Rímel. Os homens não cortavam mais seus cabelos, nem suas unhas também, e andavam maquiados exageradamente).
Lá do alto do seu apartamento, viu um homem com uma máscara de Cristo, outro com uma de Gandhi, e jurava até ter visto um Pablo Picasso! Percebeu que mesmo quando os homens ainda eram semilunáticos, até meados do início do Século XXI as máscaras já existiam. Grandes grupos de homens e mulheres vestiam suas máscaras imaginárias e perseguiam ideais mais imaginários ainda. Alguns, como Picasso até as tinham estudado profundamente, para retratar melhor a complexidade da loucura humana.
Resolveu voltar ao interior de seu lar e tentar alguns novos progressos nos I.As trompistas. No meio do movimento de virar o corpo e voltar ao interior de sua casa, viu inda anões a saltitar e beliscar todos que passavam na rua. Pior! Davam cambalhotas!
Achava que não havia mais deles no mundo... eles dão cambalhotas... que irritante!
Violeta observava as reações do seu namorado e criador. Para ela, Mi-Tshe-Ring era um deus. Não só havia criado Violeta, mas a criou a sua imagem e semelhança. Mesmo assim Violeta não entendia porque só Mi-Tshe-Ring era sério, completamente fora dos padrões de normalidade. Nunca permitiu qualquer tentativa dos seus vizinhos a serrá-lo ao meio, nunca dava aquelas risadas de hiena dos bufões, seus cabelos eram curtos, e suas unhas bem aparadas...fora o fato que mais a perturbava. Ele nunca mostrava os dentes. Apenas sorria de maneira branda, quando resolvia um problema muito intrincado.
De repente assoviou. Mi-Thse-Ring, de princípio não reparou. Achava que era algum trapezista tentando escalar o seu prédio a assoviar, na tentativa de ser notado.
Aquela música não saia de sua cabeça. Que inferno!
Resolveu ir ver quem era o “mentecapto assobiador” que tanto o importunava. Ao se defrontar com o que viu parou. Violeta assoviava. Mas como ? Não tinha ensinado, nem programado tal função. Aliás ele, o criador de Violeta, não sabia assoviar desde a mais tenra idade. Nunca soube.
Voltou o pensamento para os seus I.As. trompistas. Notou que nunca haviam conseguido tal feito. Seus lábios sintéticos conseguiam a adaptação de embocadura para tocar três oitavas das quatro da tessitura de suas trompas. Mas nunca assoviaram, nem mesmo quando tinham a inteligência musical de uma criança.
Neste momento percebeu, abriu os olhos da mente. O que falta nos I.As. é a loucura controlada. O homem nunca foi normal. Sempre foi louco, ousado, criativo. Sua loucura era controlada...sua loucura era controlada ! repetia. De lá saíram artistas, escritores, músicos, matemáticos, atletas, atores...todo o conhecimento humano é fruto da loucura controlada.
Voltou ao seu computador a fim de estudar um pouco mais os costumes de antes. Viu que os homens, os líderes, perceberam que o poder sempre se concentrava nas mãos dos que conseguiam um modo de manipular a loucura alheia, controlando-a. Sem a loucura o homem ficaria louco? OH! Que belo paradoxo. Será que foi isso o que ocorreu à humanidade? Tentaram retirar a loucura do mundo e o mundo pirou de vez?
Estendeu alguns panos úmidos ao redor de sua cadeira de trabalho e pensava... pensava... pensava, em meio ao calor. Depois de alguns instantes apenas repetia, mas que calor, que maldito calor! Que calor ...
Fez uma pausa e retirou sua máscara de palhaço. Mi-Tshe-Ring, o Bobo-Sábio de Mani-Rindu do budismo tibetano havia cumprido o seu papel naquele dia. Todas as crianças tibetanas presentes no local estavam sentadas ao redor dele a ouvir sua história. Toda a população adulta tinha sido instruída perante a loucura e a alegria. Agora poderiam voltar ao trabalho, à sua rotina. O conto alegórico por ele contado serviu de ensinamento para todos. O homem nunca precisará de ninguém para estipular os limites. A loucura controlada desempenha este papel.
Assim se cumpriu mais um dia da vida de Mao-Lee, o palhaço Mi-Tshe-Ring, de Mani-Rindu.
Ao ver que todos tinham ido embora, colocou sua máscara de Mi-Tshe-Ring de volta no santuário, e vestiu a de Demiurgo Babuíno brincalhão, e saiu pulando dando cambalhotas por sob a neve do Tibet.
Era um daqueles dias de lascar. O sol fervia as nuvens e o céu chorava pelo intenso calor que o feria. Os últimos meses foram terríveis para o mundo. Calor, muito calor, sussurrava Mi-Tshe-Ring. Calor, muito calor...
Meses a fio sem chuva, a temperatura beirava os quarenta e oito graus Celsius em Barcelona. Uma epidemia misteriosa havia se alastrado. Ainda não havia mortos, ou melhor, ainda não havia corpos espalhados pela Europa. Os corpos estavam andando por aí, pelas sombras, escondendo-se do Sol, mas não agiam mais como dantes.
Via-se de tudo nas ruas. Bufões andavam e corriam tropeçando em seus próprios pés, ou em algum outro par desavisado que passassem próximos aos deles. Derrubavam toalhas úmidas dos varais (as pessoas agora tinham este hábito. Em todo lugar encontravam-se panos úmidos pendurados), e as colocavam em suas cinturas de bufões. Tiravam suas calças e roupas íntimas, por sob a toalha, e mostravam seus órgãos sexuais em meio a gargalhadas grotescas. Às vezes apenas sentavam-se em algum banco de praça e falavam e riam com algum amigo imaginário.
Via-se também seres andróginos aos montes. Mi-Tshe-Ring observava e queixava-se do calor, da sacada de seu apartamento, em meio a toalhas úmidas e muito calor.
Outro dia de lá viu pessoas aglomeradas para assistir um vizinho ser serrado ao meio. Tinham cometido um erro durante o processo e agora tinham dois jornaleiros de noventa centímetros cada. Na verdade perderam um pedacinho dele. Mi-Tshe-Ring achava que do jornaleiro original de um metro e oitenta e dois centímetros, tinha sobrado talvez um metro e setenta e cinco.
Varreram as rebarbas do corpo bi-partido em meio ao sangue que vazava da caixa recém aberta. Mas lá iam eles, em meio a gritos histéricos, serrar outro vizinho, para tentar reproduzir o espetáculo de gerações passadas, realizado sob tendas de lona. Imaginava Mi-Tshe-Ring, hoje, sob uma lona, em meio a tal calor, qualquer criança ferveria...
Quantas máscaras pela rua. Todos usavam alguma. Mi-Tshe-Ring não entendia o planeta. Sua namorada dizia que dos quarenta e poucos músculos acionados no ato de sorrir, na face, (quando se mostra os dentes), não tinha visto nem seis. Mi-Tshe-Ring era louco. Era completamente fora dos padrões do mundo atual, por isso mantinha-se só a completar os trabalhos finais dos I.As. que estavam aprendendo a tocar trompa. Eram um quarteto de trompas. Tocavam razoavelmente bem escalas melódicas e harmonias complexas, mas a paixão dos antigos homens não se encontrava neles. Mi-Tshe-Ring depois de sete anos de pesquisa não entendia porque não conseguiam tocar como ouvia em gravações passadas. A essa altura já deveriam estar interpretando fragmentos de Stravinsky, mas soava apenas um dó ré dó ré interminável, com harmônicos que lembravam o som de um videogame do século XX, algo como o som do acelerar dos carros do Enduro-Atari.
Sua namorada ainda pretendia um dia ver os tais músculos da face a contrair e relaxar durante o tão aguardado riso de Mi-Tshe-Ring, que nunca vinha.
Como Violeta fora feita à imagem e semelhança do seu criador, não conseguia sorrir também. Era tal qual Mi-Tshe-Ring. Não entendia piadas, não assoviava, não cantarolava no chuveiro holográfico, nem enquanto comia. (tanto o chuveiro, quanto às refeições eram holográficas, Foram aclopadas ao programa inicial dos I.As. com intuito de reproduzir as funções básicas do prazer. Comer e banhar-se).
O mundo parecia um grande circo. As Sete Faces do Doutor Lao não descreveria tal espetáculo tão bem quanto o que se via em qualquer banco das muitas praças de Barcelona.
Ao olhar de sua sacada para a Sagrada Família, ainda inacabada depois de quase um século, pensou : talvez hoje Gaudi seria um ser normal, tal como eu, perante tal desvairada manada de seres humano-oníricos. Se houvesse mais homens como ele, ou como eu, em suma normais, resolver-se-ia o problema da construção. Talvez até Gáudio não tivesse morrido atropelado, pois para que olhar para a loucura arquitetônica acima de sua cabeça, se havia tanta no solo entre as pessoas...teria visto o carro a se aproximar dele...não teria sido atropelado.
Ao acessar o banco de dados dos costumes culturais do Século XX, se deparou com dados de religiões ocidentais diversas. Via que as religiões eram como um grande circo. Digo, o Rito, não o Mito, que fique claro, pensava ele. Pastores, padres, cléricos aglomeravam pessoas perante seus púlpitos e as instigavam a acreditar no impossível, no improvável. Em vez de serrar pessoas ao meio, juravam poder concertá-las, em nome de algum nome mitológico (cada uma tinha um a que recorrer). Todas aquelas pessoas com máscaras o incomodavam. Não entendia o porque deste costume atual de andar por aí com outro rosto, colocado sobre o original orgânico.
Mas se ninguém mais agia como ser individual, para que a individualidade genética? Para que tamanha singularidade em rostos diferentes, etnias, culturas. Havia apenas os grupos. Os grandes grupos.
Clãs de Bufões, clãs dos oníricos-homens, dos palhaços, dos andróginos. (As mulheres não se depilavam mais, e as que possuíam pelos faciais devido a alguma disfunção genética, tinham agora o péssimo hábito de cultivá-los, e até realçá-los com lápis e Rímel. Os homens não cortavam mais seus cabelos, nem suas unhas também, e andavam maquiados exageradamente).
Lá do alto do seu apartamento, viu um homem com uma máscara de Cristo, outro com uma de Gandhi, e jurava até ter visto um Pablo Picasso! Percebeu que mesmo quando os homens ainda eram semilunáticos, até meados do início do Século XXI as máscaras já existiam. Grandes grupos de homens e mulheres vestiam suas máscaras imaginárias e perseguiam ideais mais imaginários ainda. Alguns, como Picasso até as tinham estudado profundamente, para retratar melhor a complexidade da loucura humana.
Resolveu voltar ao interior de seu lar e tentar alguns novos progressos nos I.As trompistas. No meio do movimento de virar o corpo e voltar ao interior de sua casa, viu inda anões a saltitar e beliscar todos que passavam na rua. Pior! Davam cambalhotas!
Achava que não havia mais deles no mundo... eles dão cambalhotas... que irritante!
Violeta observava as reações do seu namorado e criador. Para ela, Mi-Tshe-Ring era um deus. Não só havia criado Violeta, mas a criou a sua imagem e semelhança. Mesmo assim Violeta não entendia porque só Mi-Tshe-Ring era sério, completamente fora dos padrões de normalidade. Nunca permitiu qualquer tentativa dos seus vizinhos a serrá-lo ao meio, nunca dava aquelas risadas de hiena dos bufões, seus cabelos eram curtos, e suas unhas bem aparadas...fora o fato que mais a perturbava. Ele nunca mostrava os dentes. Apenas sorria de maneira branda, quando resolvia um problema muito intrincado.
De repente assoviou. Mi-Thse-Ring, de princípio não reparou. Achava que era algum trapezista tentando escalar o seu prédio a assoviar, na tentativa de ser notado.
Aquela música não saia de sua cabeça. Que inferno!
Resolveu ir ver quem era o “mentecapto assobiador” que tanto o importunava. Ao se defrontar com o que viu parou. Violeta assoviava. Mas como ? Não tinha ensinado, nem programado tal função. Aliás ele, o criador de Violeta, não sabia assoviar desde a mais tenra idade. Nunca soube.
Voltou o pensamento para os seus I.As. trompistas. Notou que nunca haviam conseguido tal feito. Seus lábios sintéticos conseguiam a adaptação de embocadura para tocar três oitavas das quatro da tessitura de suas trompas. Mas nunca assoviaram, nem mesmo quando tinham a inteligência musical de uma criança.
Neste momento percebeu, abriu os olhos da mente. O que falta nos I.As. é a loucura controlada. O homem nunca foi normal. Sempre foi louco, ousado, criativo. Sua loucura era controlada...sua loucura era controlada ! repetia. De lá saíram artistas, escritores, músicos, matemáticos, atletas, atores...todo o conhecimento humano é fruto da loucura controlada.
Voltou ao seu computador a fim de estudar um pouco mais os costumes de antes. Viu que os homens, os líderes, perceberam que o poder sempre se concentrava nas mãos dos que conseguiam um modo de manipular a loucura alheia, controlando-a. Sem a loucura o homem ficaria louco? OH! Que belo paradoxo. Será que foi isso o que ocorreu à humanidade? Tentaram retirar a loucura do mundo e o mundo pirou de vez?
Estendeu alguns panos úmidos ao redor de sua cadeira de trabalho e pensava... pensava... pensava, em meio ao calor. Depois de alguns instantes apenas repetia, mas que calor, que maldito calor! Que calor ...
Fez uma pausa e retirou sua máscara de palhaço. Mi-Tshe-Ring, o Bobo-Sábio de Mani-Rindu do budismo tibetano havia cumprido o seu papel naquele dia. Todas as crianças tibetanas presentes no local estavam sentadas ao redor dele a ouvir sua história. Toda a população adulta tinha sido instruída perante a loucura e a alegria. Agora poderiam voltar ao trabalho, à sua rotina. O conto alegórico por ele contado serviu de ensinamento para todos. O homem nunca precisará de ninguém para estipular os limites. A loucura controlada desempenha este papel.
Assim se cumpriu mais um dia da vida de Mao-Lee, o palhaço Mi-Tshe-Ring, de Mani-Rindu.
Ao ver que todos tinham ido embora, colocou sua máscara de Mi-Tshe-Ring de volta no santuário, e vestiu a de Demiurgo Babuíno brincalhão, e saiu pulando dando cambalhotas por sob a neve do Tibet.











