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  • Quinta-feira, 13 de janeiro de 2005


    Plantão


    Ludwig Van Beethoven não era surdo. Era mudo.

    Poderia você pensar que estou enganado, mas não estou. Ludwig Van Beethoven era mudo, biólogo e matemático e odiava música. Quando digo que odiava música, não digo que não gostava apenas de rococó, mazurcas, valsas, minuetos, ou operetas. Não gostava de jazz, de rock, de soul, de nada. Não gostava de música mesmo! Aliás, L.V.B. não gostava de artes, pois eram demais humanas.

    L.V.B., no momento em que esta história a ser contada aconteceu, trabalhava em casa. Ia apenas uma vez por mês ao laboratório de substâncias fitotarepêuticas onde antes trabalhava diariamente. L.V.B. não dirigia, não andava de metrô, avião, ou qualquer outro meio de transporte, pois achava uma falta de respeito um homo sapiens se locomover mais rápido do que meio metro por segundo. Como despedia diariamente três horas para ir ao lab, e mais três para voltar à sua casa (como relatado, sempre a pé), resolveu trabalhar em casa, como consultor contratado, em seu próprio laboratório.

    L.V.B. realmente era um sujeito estranho. Além de todas estas esquisitices monitorava setenta e quatro samambaias, com um tipo de eletroencefalograma, adaptado por ele, a fim de medir os pulsos e as freqüências emanadas por suas samambaias.

    Todos os dias dedicava as seis horas que economizara deixando de ir diariamente ao Lab, para conversar com suas samambaias.

    Sim, conversar, porque como L.V.B. era mudo, e poderia muito bem ser surdo, já que repudiava o ato de ouvir, vibrava em perfeita harmonia com suas irmãs samambaias.

    Havia se passado um mês desde sua última visita ao Lab. Teria que retomar seus relatórios sobre os novos psicotrópicos pesquisados.

    Foi e voltou.

    Sim, assim. Foi e voltou. Para L.V.B., as oito horas demandadas para ir e vir (resolveu de repente que estava andando muito rápido! Porque não fazer o percurso de ir e vir em oito horas?) não continham nenhum fato, visão, novidade, nenhum lapso de algum momento interessante a ele.

    As duas horas que demorou no Lab, relatando suas pesquisas ao seu superior foram como uma grande viagem alucinógena. Não ficou registrada em sua memória dentro de nenhum fluxo de tempo plausível. Não sabia se havia permanecido lá quinze minutos ou quinze horas.

    Durante mais um mês L.V.B. monitorou suas plantas. Mal trabalhou. Saiu de casa apenas uma vez, pois o entregador do supermercado adoeceu repentinamente, obrigando-o a ir até lá buscar comida, mas no meio do caminho estancou, estagnou, fixou seus pés de homo sapiens no chão como duas raízes rompendo o asfalto a fim de buscar novas terras e pensou.

    Pensou sabe-se lá quanto tempo naquela mesma posição. Se alguém tivesse observado L.V.B. naquele momento teria notado que o único movimento observável exercido por ele, era o dilatar de suas narinas , com inspiração e expiração. Sua respiração era tão suave que nem seu peito se movia. Parecia mesmo que não respirava, exceto por suas narinas.

    Para que comer? Minhas samambaias não comem e vivem.

    Como biólogo, L.V.B. sabia o porque disso. Sabia que por ser um animal desprovido de cloroplastos, o sol só serviria mesmo para produzir um pouco de vitamina D. Ficou frustrado, mas como era mudo, não disse nada!

    Resolveu não ir naquele mês ao Lab. Como não usava Internet por achar desrespeitoso para com o resto do mundo animal (aliás, em se tratando de L.V.B., poderia dizer que achava desrespeitoso também para como mundo vegetal, funge, procariontes, até para as algas cianofíceas, já que segundo seu raciocínio, todo o mundo orgânico sobrevivia sem fibras ópticas e placas de silício há milhões de anos), simplesmente ficou em casa.

    Pensou :
    Toda vez que venho dar água às minhas samambaias, cinco metros antes de chegar perto da parede da estufa onde está pendurada a primeira samambaia, o eletrosamambaiagrama aponta uma pequena variação, proveniente da variação de consciência da primeira samambaia. No decorrer do caminho dentro da estufa, quando percorro o sentido da entrada até o último vaso, o eletrosamambaiagrama vai apontando variações crescentes, obviamente essas variações crescentes seriam justificáveis. Como sua estufa era em formato de corredor, ou seja, todas as setenta e quatro samambaias estavam na mesma parede, como uma fila indiana, a cada vez que chegava cinco metros perto da próxima samambaia da fila, seria somada a informação de que ela também saberia que ele está lá, e assim por diante, até que no final do processo ficaria registrado no eletrosamambaiagrama as variações de felicidade das setenta e quatro samambaias.

    Mas ao olhar os gráficos resultantes dos momentos de felicidade das setenta e quatro plantas, notou uma pequena anomalia. A última samambaia das setenta e quatro estando a pelo menos trinta e cinco metros da primeira, na entrada da estufa, não poderia saber que estou por perto apenas em 2 segundos.

    Pensava e não chegava a uma resposta, já que em seus passos lentos de menos de meio metro por segundo, não conseguiria chegar ao limite do alcance de percepção sensorial da última (ou seja, a cinco metros dela) em menos de sessenta segundos. Mas a última, 2 segundos após a primeira demonstrar as primeiras variações sensoriais, oscilava também.

    Duas semanas depois entendeu, depois de ler e reler os gráficos. Elas conversam uma com as outras, e uma avisa a outra, como na brincadeira do telefone sem fio.

    Mais um mês estava acabando, e os trabalhos sobre o princípio ativo a ser isolado, de uma planta até então desconhecida no sul do Chile, se acumulavam em sua mesa. Na verdade não se acumulavam, pois do ato de acumular entende-se aumentar o volume de algo, com relação a uma amostra anterior. A pesquisa de L.V.B. empoeirava-se, por melhor dizer.

    Elas conversam, pensava. Elas conversam.

    Como viu que não estava evoluindo em sua tese, resolveu voltar à pesquisa da espécime vegetal chilena. Percebeu que uma substância proveniente do vegetal, quando injetada em ratos, fazia com que parassem de comer, mas sem perda de peso, inteligência, não afetando o humor, nem a sociabilidade.

    Chegou a um novo paradigma. Isso não seria possível. Os ratos não comiam a pelo menos um mês e meio. Com sua dedicação para com as samambaias, não foi alimentá-los. Todos deveriam estar mortos. Deveria ter ocorrido primeiramente canibalismo, fazendo perecer os mais fracos. Depois de um mês, nem mesmo os mais sortudos geneticamente poderiam permanecer vivos. Mas era ainda mais inexplicável, pois todos estavam vivos e felizes.

    A confusão reinava em sua mente de mudo-não-surdo. Estava sentado junto às samambaias quando ouviu uma voz. Tá certo que ele não era surdo, mas de onde vinha à voz? Não havia viva alma lá.

    Não havia viva alma humana lá, pois as samambaias naquele momento estabeleceram o primeiro contato com um ser humano. Naquele instante L.V.B. resolveu testar em si a substância do vegetal chileno. Tinha certeza de que era o certo e deveria ser feito, pois não poderia haver uma samambaia má no mundo. Se elas estavam dizendo isso ao ser que as tornava mais felizes todos os dias (pelo menos era o que teimava em apontar o eletrosamambaiagrama), só poderia ser para seu bem.

    Hoje, L.V.B. é o primeiro homem-plantão do mundo !

    Nunca mais sairá de casa, pois não precisa mais comer. L.V.B. é um ser híbrido animal-vegetal. Optou por ser hidropônico, pois por mais que tenha se tornado um homem-plantão, o seu lado humano acha a terra e a poeira ainda um pouco incômodos. Tem seus pés enterrados em enormes canos de água, tomando sol o dia inteiro, ele e suas samambaias.